Tinha ido ao hospital levar uma amiga pra doar sangue, eu esperava na recepção do banco de sangue, as vezes sentava outras vezes ficava andando do lado de fora. O hospital tinha outras portas por onde as pessoas tinham acesso, pessoas de todos os tipos que estavam ali buscando retardar o inevitável, umas encurvadas outras não. Parece assim que a terra vai chamando e a pessoa vai adentrando cabeça abaixo semelhante ao nascimento. Tinha um homem que tinha cara de quem se desfalece aos poucos... É certo que todos somos desfalecentes, cada um no seu ritmo.
Em contrapartida, em frente ao pórtico onde eu esperava, jazia um busto de um médico daquela Santa Casa fitando o infinito. Ficamos ali duas estátuas, a de pedra por ser mais alta fazia com que eu a olhasse de baixo para cima, assim eu vi que no busto do doutor trazia os dizeres "Uma homenagem ao Dr XXXX pelo exemplo de bondade, dedicação etc profissionaes". "Profissionaes" me chamou a atenção, e como não era possível a palavra ter sido grafada errada, conclui que a placa devia ter sido confeccionada já há algum tempo. Aproximei-me e li, "novembro de 1952". Meu Deus, como fazia tempo!
Demorei um pouco a absorver a informação enquanto me fixava naquela pedra polida, depois vi o tempo como uma linha infinita que passava na altura dos ombros do doutor ali imóvel e que desde 1952 daquela posição via agora a outra ponta da linha, perdida num horizonte em névoas, uma visão que só ele tinha acesso. A estátua imutável de um homem exemplo, de olhos bondosos fixos no além, indiferente a mim e a todos, e eu numa dimensão diferente da dele apenas conjecturava sobre o passado e o futuro a morte e a vida enquanto no entorno vultos iam e vinham, vozes e outros sons se misturavam.