quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O menino

O menino nunca perdia a oportunidade de passar na frente da loja que vendia, além de outras coisas, filhotes de frango, a quem chamava pintinho. Parava e ficava observando; ele adorava os bichinhos, eram bonitinhos. E os acariciava com ternura, suas penugens eram sedosos... havia ali uma fragilidade intrínseca com a qual o garoto se prendia.

Quis o destino, após um tempo, que o menino fosse trabalhar na loja dos filhotes. Um dia chegou novos deles e o menino, como sempre, os recebeu com muita alegria. Mas entre eles havia um filhote doente, tinha dificuldade de se alimentar. O menino achou que o filhote devesse receber cuidados especiais até se recuperar e comunicou então a situação ao patrão. Este deu-lhe a ordem num fôlego só:
- MATE O FILHOTE DOENTE!

O menino ficou atordoado com aquela sentença ficando perdido entre o amor ao animalzinho e o pragmatismo capitalista endiabrado. E agora? Matar o filhote? Eu? De fato, ele não conhecia as práticas do sacrifício, nem as teorias da morte arranjada, sua alma toda e seu corpo inteiro tinham sido educados para a afeição incondicional à vida.

Mas ainda que o mundo do menino fosse um, a realidade era outra e agora ele tinha uma ordem a cumprir, e não restando outra alternativa foi para o posto do carrasco, arrastando atrás de si sua alma em farrapos. Por mais que tentava, porém, não tinha modos, não levava jeito para o ofício; o seu coração o inundando de sinais contrários, seus músculos na média faziam-no permanecer no mesmo lugar.

Inconformado em ver o novato perdido e sem ação, saltou então do peito do patrão o demônio que, vociferando fogo com enxofre, num salto único voou até se instalar em cima do filhote e o abarcou com as mãos assassinas. Ainda babando cólera julgou possuir pouca fúria e foi emprestar mais um pouco do diabo que lhe atendeu prontamente. Finalmente num lance rápido atirou o filhote ao chão numa cena chocante e liquidou, arrebentando o animal e o pequeno coração do menino que, atônito, assistia à cena repleto de perplexidade, pavor e compaixão.

Depois disso quando pode estar longe dos olhos do assassino foi ver de perto o filhotinho morto que permanecia no lugar que fora atirado, sem vida... e o garoto com ódio dos homens.